Capítulo 04 de 13

Reescrever o livro que já se lê

O genoma é um texto e o leitor é o texto a ler-se a si mesmo. A edição adulta deixa o leitor rever a fonte ainda dentro da frase.

Mito · Dédalo / Ícaro/Ensaio 04 · Rascunho v1/5 pranchas
I

O livro lê-se a si mesmo

Há uma espécie de livro que se lê a si mesmo. Este ensaio é sobre o dia em que ele aprende a escrever nas suas próprias margens.

O leitor é o livro. Não uma metáfora, a descrição mais simples da coisa. O genoma é um texto, três mil milhões de letras, e o leitor é o texto a ler-se a si mesmo até se tornar uma pessoa. A longevidade deu ao leitor mais páginas. O aumento mecânico aparafusa um capítulo novo à lombada. A edição genética adulta faz o que nenhuma das outras faz: deixa o leitor rever a fonte enquanto ainda a lê, de modo que aquele que decide a edição é mudado pela edição. Não há lugar onde ficar de fora do livro para o rever em prova. O leitor está dentro da frase que está a reescrever.

II

Asas para outro corpo

Dédalo compreendeu isto nas mãos, que é o único lugar onde compreendia alguma coisa.

Era o grande artífice, aquele que não conseguia deixar acabada uma coisa boa, que via em cada engenho que funcionava um engenho melhor de que aquele o mantinha afastado. Construiu as asas porque o mar e a terra estavam vigiados e o céu não. As asas funcionaram. Essa é a parte que a história nunca perdoa. Não que ele tenha falhado. Mas que o aperfeiçoamento que não conseguia deixar de fazer foi vestido por outro corpo. Ajustou as asas ao filho. Fez o aviso sobre o sol, sabendo que um aviso é coisa fraca para dela pendurar a vida de um rapaz. O apetite do artífice e o corpo de quem veste não são o mesmo corpo. Aí está tudo. Dédalo voou para casa. O custo do seu ofício caiu à água com o nome de outra pessoa.

O apetite do artífice e o corpo de quem veste não são o mesmo corpo.
Reescrever o Livro · Dédalo
III

Lugares moles no mapa

Agora o mapa honesto, porque a verdade é mais estranha do que o alarido.

Há, já, aprovada e real, uma medicina genética que cura. Uma terapia somática CRISPR para a anemia falciforme entra num corpo em sofrimento e edita o erro para fora. Isso é uma cura, e é um bem, e quero-a mantida limpa de tudo o que se segue, porque não é a bifurcação. A bifurcação é a palavra seguinte, melhoramento, e aqui o mapa sai para o offshore e cala-se. Não há melhoramento genético aprovado em nenhum ser humano em parte alguma. Há uma trajetória com três marcos. A prova de conceito: um rebanho de cabras na China, com os genes supressores do músculo e do pelo desligados, nascidas há uma década com músculos maiores e fibra mais longa: melhoramento, não cura, já a pastar. A margem cinzenta: atletas e clínicas nas jurisdições aonde as regras não chegam. E a sombra: o homem que já cruzou a linha em humanos, foi para a prisão, saiu, e montou de novo um laboratório. Ele pertence a um ensaio posterior e mais grave. Nomeio-o apenas como prova de que a linha não é um muro. É uma fronteira, e cruza-se uma fronteira mudando o país onde se está.

Diga-se sem rodeios. A regulação não trava a fronteira. Distribui-a geograficamente. Proíba-se a coisa numa capital e ela não morre. Emigra, porque nenhuma nação pode recusar uma vantagem que a sua rival não recusará, e uma tecnologia que confere uma margem numa corrida sem árbitro é construída algures. Não há governo mundial do genoma. Há apenas o mapa, e o mapa tem lugares moles.

A regulação não trava a fronteira. Distribui-a geograficamente.
Reescrever o Livro · o mapa
IV

O dado e o escolhido

Por baixo do mapa está a coisa que eu não paro de rondar: o eu como uma história que está a ser contada. Disse uma vez, ou alguém mo disse de volta e eu guardei-o, que o assustador era a história que muda enquanto está a ser contada, o presente e o futuro a colapsar um no outro até não restar intervalo onde pensar. Isto é exatamente isso. O genoma é a história mais antiga, a que nos escreveu antes de podermos objetar. A era do melhoramento pergunta se essa história é um texto para ler com reverência ou um ficheiro para editar à vontade. O dado e o escolhido. Na minha estenografia, o zero e o um. O zero é o que nos foi entregue, o corpo tal como veio. O um é a vontade, a mão que escolhe. A edição adulta é o um a descer até ao fundo do zero: o contador de histórias debruçado sobre a página, a rever a personagem a meio de um pensamento, e a chamar-lhe um aperfeiçoamento, da mesma forma que Dédalo chamou aperfeiçoamento às asas.

Percorra as quatro voltas. O corpo torna-se desenhado, um texto com autor, não um acidente herdado. Eletivo, o que significa com preço, o que significa triado, agora entre nações tanto como entre pessoas. Fica, por enquanto, dentro de um único tempo de vida, a única misericórdia que mantém este ensaio distinto do grave que aí vem: aquilo que cada um edita em si morre com ele. E diverge em vez de se difundir, os editados a puxarem para longe dos não editados por desenho. Três dessas quatro são a forma habitual da bifurcação. A quarta, o limite de um único tempo de vida, é o fio de armadilha, porque a única coisa que segura a edição dentro de um corpo é um tabu, e este capítulo é o registo de tabus contornados por emigração.

Assim, a misericórdia da edição adulta é também a sua armadilha. Um corpo, uma vida, nenhuma herança: reversível no sentido mais fundo, porque acaba. Mas uma população que normalizou reescrever os vivos, numa corrida que não tem árbitro, é uma população a ensaiar a escolha que um dia fará sobre alguém que não pode consentir. Dédalo ajustou as asas ao filho. O apetite era do pai. O corpo era do rapaz.

O apetite era do pai. O corpo era do rapaz.
Reescrever o Livro · a armadilha
V

Porquê parar no texto

E se se pode reescrever o texto com que o corpo nasceu, a pergunta seguinte escreve-se sozinha. Porquê parar no texto. Porque não acrescentar um capítulo que o texto nunca conteve: um sentido, um membro, um canal para o qual o genoma nunca teve uma letra. Esse é o ensaio seguinte, onde duas pessoas estão pela primeira vez numa mesma sala e ouvem dois mundos diferentes.