Para que serve um humano?
As máquinas ficam com o trabalho, e o salário nunca foi tudo o que havia nele. A pergunta não é como comerão as pessoas. É como importarão as pessoas.
A ferida respondida
O sonho mais antigo do trabalho sem trabalhadores tem três mil anos, e pertencia a um coxo.
Hefesto era o ferreiro dos deuses, atirado do céu pelo crime de ter nascido errado, e coxeou por uma vida imortal. Por isso construiu ajudantes para si. No velho poema há servas feitas de ouro que se movem e pensam e falam, e trípodes sobre rodas que rolam sozinhos até ao banquete dos deuses e de volta para casa. O artífice que não podia andar construiu um mundo que viesse ter com ele. Repare em quem sonha isto primeiro. Não o senhor com o chicote. O ferido, aquele que a economia dos corpos já tinha descartado, que precisava de que o trabalho se fizesse e não podia fazê-lo. O sonho do trabalho fabricado não é, na sua raiz, um sonho de dominação. É um sonho de a ferida ser respondida. Retenha isso. As máquinas estão a chegar agora, e não são os deuses que estão prestes a ser servidos.
É um sonho de a ferida ser respondida.
Duas frentes que se fecham
Estão a atravessar enquanto escrevo isto, do vídeo de demonstração para o armazém. Máquinas humanoides (firmas americanas, os programas estatais chineses que não se deixarão ultrapassar) a andar, a levantar, a aprender a dobrar e a separar e a carregar. Essa é apenas a metade visível. A outra metade não tem corpo: software a comer em silêncio o trabalho cognitivo que a toda uma classe média global disseram ser o terreno alto e seguro. Duas frentes, a mão e a cabeça, a fecharem-se ao mesmo tempo. E a coisa que nunca se diz claramente no mundo rico onde a história é contada: isto cai primeiro e com mais força sobre as economias que se industrializaram por último: as oficinas têxteis, os centros de atendimento, os campos; sobre os trabalhadores a quem venderam o trabalho como a escada de subida, a verem-na ser retirada quando vão a meio. O paraíso pós-trabalho é uma vista do alto da escada. Nomeie quem está de pé debaixo dela.
O remendo que se propõe é dinheiro sem trabalho, e os projetos-piloto honestos existem, e os seus resultados são reais e mistos. Mas atente na forma da oferta: responde à pergunta errada. Responde a como comerão as pessoas. Nunca toca na pergunta por baixo, aquela que as máquinas forçam a vir à luz pela primeira vez na história. Não como comerão as pessoas. Como importarão as pessoas.
Não como comerão as pessoas. Como importarão as pessoas.
Parede-mestra
Porque o trabalho nunca foi apenas sobrevivência. Volte ao fogo. Cinco dias antes de uma guerra, no velho relato, todos na aldeia são empurrados ao seu melhor: os fortes, os fracos, aqueles que o mundo tinha dado por perdidos; cada um a encontrar aquilo que pode trazer, porque o momento os exige a todos. Uma festa faz o mesmo sem o sangue. Todos vêm, todos trazem o que têm: o vinho, a música, o pequeno dom que é seu. E nesse trazer cada um encontra o seu lugar no todo. Era isso o trabalho, por baixo do salário: o mecanismo pelo qual um ser humano encontrava onde encaixava e para que servia. Deixe as máquinas fazer o carregar e o contar e não liberta esse mecanismo. Expõe-no, ali parado sem nada que fazer, e descobre que era uma parede-mestra.
Portanto a bifurcação aqui não atravessa um corpo mas atravessa uma sociedade, e abre dois futuros a partir das mesmíssimas máquinas. Num deles, a canseira é levantada e o humano volta-se para o que sempre foi o essencial: o fazer, o cuidar, a festa para a qual ninguém tem de ser arrastado. No outro, o humano é simplesmente redundante, sem lugar, sem contributo, sem resposta. E há um desespero particular reservado a quem não importa a nada. As máquinas não decidem qual. As máquinas são indiferentes. Quem as possui decide, e como o rendimento é partilhado, e se uma cultura conservou alguma história do valor humano que não seja uma história sobre produtividade. E a mesma máquina fará ambas as coisas ao mesmo tempo: libertará as nações que constroem as máquinas e deixará encalhada a sociedade que forneceu o trabalho que ela substituiu.
Expõe-no, ali parado sem nada que fazer, e descobre que era uma parede-mestra.
Como importarão as pessoas
Percorra as quatro viragens, desta vez numa economia e não numa célula. Desenhada: uma economia composta, não crescida. Eletiva para os que possuem as máquinas, imposta àqueles cujo trabalho é apagado, que não elegeram nada. Uma vez construída, um trinquete que não roda para trás. E diverge em vez de se difundir: o fosso entre os donos e os deslocados a endurecer até se tornar estrutura, e globalmente, entre os construtores e as nações automatizadas para fora da conversa. A mesma forma de cada bifurcação deste livro, traçada desta vez através de toda a divisão humana do trabalho.
O que me devolve à pergunta que o ensaio anterior passou escadas acima, a mais grave, a terminar nisto: para que serve um humano. Disse aí que tudo o que vinha antes da linha germinal era ensaio geral e tudo o que vinha depois era rescaldo. Esta é a primeira sala do rescaldo. Quando as máquinas fazem o trabalho que a sobrevivência nos exigia, não recebemos uma resposta. É-nos perguntado, finalmente, sem maneira nenhuma de o esquivar, para que serve um humano quando continuar vivo já não é o ofício. Hefesto construiu as servas de ouro porque estava ferido e precisava de que o mundo viesse ter com ele. Nós estamos a construí-las porque podemos, e ainda não dissemos o que faremos com as mãos que ficam livres.
Uma espécie que não consegue responder, libertada da canseira e vazia na libertação, fará o que os povos inquietos sempre fizeram quando o lugar onde estão já não tem um lugar para eles. Procurará outro sítio para onde ir.
ainda não dissemos o que faremos com as mãos que ficam livres.




