Os místicos com as notas suprimidas
Os pais da razão chegaram pela porta do místico, e as suas famílias fecharam o quarto à chave. A bifurcação ameaça consumar esse expurgo na carne.
O quarto fechado à chave
Há um quarto, no registo de quase todos os homens que nos ensinaram a chamar pais da razão, que a família fechou à chave antes de nos deixar entrar.
Newton deixou mais palavras sobre a profecia e as obras ocultas de Deus do que sobre a gravidade. Leu as dimensões do templo de Salomão à procura de um código. Passava as noites debruçado sobre a alquimia, perseguindo a transmutação como se a própria matéria fosse uma língua que ele pudesse aprender a falar. Quando as caixas da sua propriedade, mantidas em silêncio durante duzentos anos, finalmente foram a leilão, foi isto que caiu de lá: não o sereno fundador do mundo de relojoaria mas um homem de joelhos perante um universo que acreditava assinado. Descartes deu-nos o método frio, penso, logo existo, a mente selada face à máquina do corpo. Também situou a alma numa pequena glândula atrás dos olhos e datou toda a sua filosofia de três sonhos numa noite de novembro, sonhos a que a tradição chama visões, anjos, uma voz. Anjo ou febre, não importa. O método chegou pela porta do místico, e a porta foi depois emparedada.
Não herdámos os místicos. Herdámos o expurgo.
Não herdámos os místicos. Herdámos o expurgo.
A janela da guerra
Aos vinte e dois anos escrevi uma equação que não entendia. Zero é igual a um. Quis que fosse a coisa mais profunda que sabia e não teria sabido dizer porquê. Anos depois, mais velho, para um gravador, recorri a Newton e a Descartes e disse a coisa em que ainda acredito: eram místicos, ambos, em contacto com uma forma intuitiva e mágica de conhecer, e as suas famílias suprimiram essas notas para não perderem a credibilidade. Assim a história recorda os pais racionais e esquece os homens obcecados com o outro lado de si mesmos. Aos trinta, pensei que estava a descrever dois mortos. Nunca se tratou deles. A supressão foi uma civilização inteira a escolher. Escolheu o um e enterrou o zero. Chamou à razão a verdade, à intuição um embaraço, e ao enterro chamou progresso.
Então a razão percorreu todo o seu próprio corredor e saiu pela porta do outro extremo: a porta do místico, que ali estivera o tempo todo.
A viragem é história, não metáfora. No arco da segunda guerra, aconteceram duas coisas que quase nunca são contadas juntas. Partimos o átomo, e aprendemos que a matéria e a energia são uma só coisa com duas faces: que, partido o um até ao fundo, o mundo nunca foi sólido, que à escala mais pequena deixa de se comportar como uma coisa e começa a comportar-se como uma pergunta. E num laboratório na Suíça, nessa mesma janela, alguém sintetizou uma molécula capaz de entrar numa mente e de a abrir para exatamente isso. Não um ano de calendário: a janela da guerra, da reação em cadeia à descoberta e à bomba. Mas pertencem a um só momento. A física chegou ao chão da matéria e não encontrou chão. A química entrou na perceção e descobriu que ela podia ser afinada.
Ambas descobriram, de duas direções, aquilo que os místicos tinham sido suprimidos por terem dito. O observador não está fora da experiência. Na leitura mais estranha da nova física (uma interpretação, o campo ainda discute), o ato de medir decide se o mundo se apresenta como partícula ou como onda. Quem observa está na equação. A subjetividade deixou a última fila e tornou-se uma variável na página. Esse é o pêndulo a voltar pela porta das traseiras, pelo corredor que saía do racional. Newton e Descartes tê-lo-iam entendido de imediato. É a coisa por que os seus diários foram fechados à chave.
Recorde o ouvido
Agora recorde o ouvido.
Duas pessoas numa sala, e uma delas voltou-se para um som que, para a outra, não tinha acontecido. Contei essa história há alguns ensaios e não a terminei, de propósito. Aqui está o resto. Em 1943 o observador entrou na equação, mas todos os observadores corriam ainda o mesmo hardware. A onda era estranha, mas era uma só onda, e todos a colapsávamos com os mesmos olhos e os mesmos ouvidos, por isso ainda podíamos discutir sobre o que tínhamos visto. O instrumento partilhado aguentou. A bifurcação industrializa o que aquela janela de guerra descobriu. Não se limita a deixar o observador colapsar a onda. Fabrica o observador. Constrói os olhos. Descartes pôs a alma atrás dos olhos; nós agora vendemos os olhos. A visão privada do místico, aquela que a família escondeu para o proteger, torna-se um implante de retina com um preço e uma lista de espera.
Não se limita a deixar o observador colapsar a onda. Fabrica o observador.
Amputação
A verdadeira tragédia não são as máquinas. A razão nunca foi inimiga do místico. O zero e o um nunca foram dois campos em guerra. Eram um só corpo (em Newton, em Descartes, no rapaz que escreveu a equação e não soube lê-la), carregados juntos e obrigados a esconder uma metade. A bifurcação ameaça consumar, na carne e para sempre, o que aquelas famílias fizeram aos diários dos seus pais: cortar o corpo único em dois, os recusantes a ficar com o zero, os aumentados a comprar o um, nenhum capaz, ao fim de algum tempo, de ler a letra do outro na página. Isso não é aumento. Isso é amputação, vestida de progresso, praticada à escala de uma espécie, e a chamar superstição à metade que falta.
A gaveta
As páginas nunca estiveram mais do que suprimidas. Alguém guardou as caixas. A escolha permaneceu reversível durante duzentos anos porque era um só corpo e as notas continuavam na gaveta.
A pergunta com que o último ensaio deixa quem lê é o que acontece quando as notas não são suprimidas mas cirurgicamente removidas. Quando o zero e o um se tornam dois tipos de ser humano, e não há gaveta, nem descendente, nem leilão dois séculos depois em que a outra metade caia das caixas. Quem resta, então, que ainda saiba ler as duas letras da página.
Quem resta, então, que ainda saiba ler as duas letras da página.




