A Torre do Um
Onze cortes, uma ferida, o último chão partilhado a ceder. A pedra de fecho encerra o capítulo onde ele começou, no portal, a decidir.
De volta ao portal
Volte ao portal.
Há uma cabana em Tulum, e uma mulher de pé no seu portal com a luz atrás dela, a ler páginas que lhe foram entregues, querendo dizer com elas exatamente o que o homem que as escreveu queria dizer. Abri este capítulo ali e ali o terminarei. Pensei que aquela sala era um começo. Estava mais perto de ser uma última coisa. Duas pessoas e um só mundo. As mesmas páginas, as mesmas palavras, o mesmo peso a cair em nós os dois ao mesmo tempo. Eu não sabia que isso era raro. Pensei que era simplesmente o que uma sala era.
Os três chãos
Era o chão. E este capítulo inteiro tem sido o som dele a ceder.
Havia três chãos por baixo de nós, e só reparávamos nos dois de cima. O primeiro era a matéria, o mundo em que se podia estar de pé e a que se podia chamar real. Abriu-se em fendas na janela da guerra, quando partimos o átomo e descobrimos que as coisas mais pequenas deixam de ser coisas e passam a ser perguntas, que até o solo era uma onda que tínhamos concordado em ler como pedra. O segundo chão era o significado, a palavra partilhada, a única coisa de que Babel alguma vez tratou. Babel não é uma história sobre altura. É uma história sobre uma palavra para tijolo que queria dizer tijolo para todos ao mesmo tempo, e sobre o terror de a perder, de a palavra se desfazer na boca até não haver dois construtores capazes de concordar sobre o que estavam a construir. Esse chão está a rachar há muito tempo.
Havia um terceiro chão por baixo daqueles, tão fundo que ninguém lhe deu um nome, porque ninguém imaginou que pudesse ceder. A própria perceção. O instrumento partilhado. O facto de que eu e quem lê, fosse o que fosse que nos dividisse, encontrávamos o mundo através de quase os mesmos olhos e ouvidos: uma faixa estreita de luz e de som que todo o ser humano que alguma vez nasceu recebeu à nascença e não podia devolver. Esse era o chão verdadeiro. A garantia por baixo de todas as discussões, porque, para discutir o que aconteceu, tínhamos primeiro de ter recebido o mesmo acontecer. A biologia era o contrato. E a bifurcação vem por esse chão.
Três florestas
Deixe-se o velho enigma cair mais uma vez, e observe-se quem está perto dele.
Uma árvore cai na floresta. Três pessoas ouvem-na. Uma é um humano padrão, a quem foram entregues os ouvidos antigos. Outra comprou uma banda mais larga, e ouve no estrondo frequências para as quais a primeira nunca terá uma palavra. Outra foi editada antes de nascer para ouvir ainda de outro modo; para ela nem sequer é o mesmo acontecimento. Três corpos, uma árvore, três sons saem daquela clareira. Não três opiniões sobre um som. Três sons. O enigma sempre escondeu um pressuposto: uma testemunha-padrão, um ouvido a que a pergunta pudesse ser feita. Parta-se a testemunha em tipos e a pergunta parte-se com ela. Já não há "o" som sobre o qual discutir. A janela da guerra ensinou-nos que o observador colapsa a onda. A bifurcação responde fabricando o observador por encomenda, e assim já não resta no mundo uma única onda para colapsar. Três florestas, onde antes havia uma.
Onze modos como o fizemos. A esta altura já se ouve o sino em cada um. Os recusantes que ficaram com os ouvidos antigos e se tornaram, por ficar com eles, um povo diferente. A voz interior, alugada. O tempo de vida desatrelado das gerações. O próprio texto do corpo reescrito, e dotado de letras que nunca lhe tinham sido atribuídas. A escolha feita pelos que ainda não nasceram, o chão do chão, a que não pode ser desfeita. A sobrevivência entregue às máquinas até termos de perguntar para que serve um humano. O céu dividido, um ramo a ir para onde o outro não pode seguir, à deriva para outro tipo. O eu copiado para fora da sua própria carne. O mistério que antes era gratuito, atrás de um muro de pagamento. Onze cortes. Uma ferida. Cada corte a mesma ferida: o fim silencioso da testemunha-padrão, o último chão partilhado, a coisa que fazia de nós uma só coisa capaz de discordar.
Três florestas, onde antes havia uma.
O guerreiro humilde
Não vou entregar um vilão. Nenhuma torre está a ser construída por homens maus numa cidade distante. A Torre do Um é um espelho. Somos todos nós, uma compra de cada vez, a escolher o um em vez do zero, exatamente como a família de Newton e a de Descartes o escolheram por eles, selando as notas místicas para manter limpos os pais racionais. Estamos a fazer a nós próprios, na carne e para sempre, o que aquelas famílias fizeram a dois cadernos. E o recusante não está inocente. Aquele que se agarra aos ouvidos antigos e chama aos aumentados já não humanos faz o mesmo corte do outro lado, ficando com o zero e enterrando o um. Ambos esquecem a única coisa que vale a pena lembrar: o zero e o um nunca foram dois povos. Eram um só corpo. O todo de uma pessoa é a flutuação entre eles, e a única figura que atravessa isto intacta é a que consegue manter abertas ao mesmo tempo as duas mãos da página e se recusa a rasgá-la. O guerreiro humilde. Aquele que alcança a mestria e não deixa que ela lhe suba à cabeça, que toma a herança inteira, razão e visão, método e sonho, e não amputa metade de si para ser legível. Se restam muitos leitores assim, não posso dizer.
A sala aguenta
Portanto, deixo quem lê onde o encontrei. No portal, com a luz atrás de si, páginas na mão.
O rapaz de vinte e dois anos escreveu uma equação que não conseguia ler. O homem ao gravador encontrou a analogia. O homem de agora tem apenas os recibos, o portal, e o facto simples de que, enquanto duas pessoas puderem estar de pé numa mesma sala e querer dizer a mesma coisa com a mesma página, a torre não está terminada e o chão não desapareceu. Ainda não. Não de todo.
Estamos, todos nós, ainda a dizer a mesma palavra.
Gostaria que a sala aguentasse mais um pouco. Desconfio que é essa a oração inteira.
Estamos, todos nós, ainda a dizer a mesma palavra.




